quinta-feira, 12 de abril de 2012

Seção Literária: crônica

NOSSO CRIME PERFEITO DE CADA DIA


   Essa história de que o assassino sempre volta ao local do crime parece larga demais pra ser usada em sentido tão estrito e pertencer ao campo exclusivo da criminologia. Extraordinários milhões de animais selvagens voltam ao primeiro broto da primavera, enquanto peixes e aves também cumprem o dever da espécie. Volta a boca do recém-nascido ao seio materno, que mais tarde, pródigo, a casa voltará. Reparem no sol que brilha todo dia numa profusão de cores crepusculares, exceto quando a chuva volta; no sorriso de espumas que o vaivém das ondas abre; nos exilados e seu ingente sentimento pátrio; nos mendigos que permanecem rodeando o bairro e fazem seu nicho de papelão sob aquela marquise, nossos próximos; e reparem nos cães, afamados fiéis. No metrô, uma senhora distinta me ordenou um com licença, eu levantei de imediato e li o anúncio de que o assento era reservado, andar distraído por aí é um grande crime, quando ela desceu na estação Teodoro Sampaio voltei a sentar, não lhe tiro a razão, nem a minha, meu e-mail está cheio de mensagens automáticas. Sendo assim, nem só o assassino é que volta à cena. Extraordinários milhões de trabalhadores anônimos fazem o seu pão pra que nunca lhes falte uma resposta à mesa; e tem o artista irrequieto, admirado por todos amiúde burila a obra, vai no encalço, ultrapassa a sorte, tasca um retoque, qualquer falha aflige sua aptidão de exímios. Então, de algum modo as coisas voltam, de algum modo doce os poetas sabem: voltam as uvas ao sabor dos vinhos. Reparem no reencontro, o soluço dos passos volta feito música aos ouvidos, feito segredo, feito promessa, feito estrelas, e mesmo longe, com pouca ou nenhuma lógica, nosso coração volta a bater no peito da pessoa amada. O fato de que o assassino sempre volta ao local do crime me faz diariamente acordar de alma limpa, levar flores e reler os clássicos.

                                                                                              Arthur Aprígio Faria Júnior

Um comentário:

  1. Excelente texto Arthur, valeu por compartilhar. Espero que poste outros assim. Abraços!

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